Christine, de Stephen King

“Esta é a história de um triângulo amoroso, poderia-se dizer – Arnie Cunningham, Leigh Cabot e, é claro, Christine. Mas quero que você entenda que Christine chegou primeiro. Ela foi o primeiro amor de Arnie, e embora eu não tenha a presunção de garantir (de qualquer modo, no alto da enorme sabedoria que possa ter alcançado em 22 anos), creio que ela foi seu único e verdadeiro amor. Portanto, chamo de tragédia o que aconteceu.” 
(Prólogo de Christine, de Stephen King)

Antes de mais nada, mais dois fatos devem ser acrescentados para iniciar essa resenha. O amor de Arnie e Christine foi a primeira vista. E Christine é um carro. 

É de conhecimento geral que um automóvel é capaz de despertar as maiores e diversas emoções no ser humano, principalmente em seu proprietário. Há algo a mais que o zelo cotidiano. São paixões, que quando mal administradas se tornam uma obsessão. E ciúmes do parceiro, seja esposo(a), namorado(a), ficante. Mas e quando o ciúme doentio parte do próprio automóvel? É essa a história que Stephen King propõe ao leitor neste livro, publicado em 1983, e que no mesmo ano, recebeu uma adaptação cinematográfica. 

Christine é divido em três blocos principais: Dennis, Canções Sobre Carros para Adolescentes; Arnie, Canções de Amor para Adolescentes; e Christine, Canções de Morte para Adolescentes. O primeiro e último capítulos são narrados pelo ponto de vista Dennis Guilder, melhor amigo de  Arnie Cunningham, o dono de Christine, enquanto a parte central é contada por um narrador onisciente. Antes de cada capítulo, há um trecho de alguma canção que tem os carros como tema em alguma estrofe, o que estabelece a relação entre as músicas e a história contada.

Arnie Cunningham é apresentado ao leitor como um completo perdedor. Típico “nerd” dos anos 70/80, com seus óculos grossos,roupas antiquadas, andar desajeitado e um sério problema com acnes. Seu único amigo é Dennis, que desfruta do prestígio e popularidade de um atleta colegial. Ambos encontram Christine, um Plymouth Fury em péssimo estado de conservação, no final das férias de verão. O então proprietário do veículo é o reservista do exército Roland LeBay, visto como um ser desprezível por todos que o conhecem. O velho LeBay vê em Arnie o otário ideal para se desfazer da lata velha. Apesar dos protestos de Dennis e de seus pais, o jovem adquire o carro por razoáveis 250 doláres. 

Utilizando seus conhecimentos em mecânica automotiva, Arnie passa a restaurar Christine com suas economias antes reservadas para a universidade, o que desagrada os pais do garoto. Além dos enfrentamentos familiares,  Arnie tem que sobreviver ao bullying cometido pelos valentões do colégio. No entanto, conforme Christine volta a ganhar as ruas, a personalidade e até a aparência dele passam por alterações. Ao mesmo tempo que ganha autoconfiança, ele torna-se mais sarcástico e frio, distanciando dos antigos hábitos e pessoas. Em meio a essas circunstâncias, chega ao colégio Leigh Cabot, uma bela inteligente adolescente, que apesar das investidas dos demais garotos, prefere sair e posteriormente, namorar com Arnie, o antigo perdedor.

Diante tamanha mudança de comportamento, há também uma energia estranha que emana de Christine, como se aquele automóvel tivesse sentimentos, e os piores possíveis. Enquanto as demais pessoas apenas reclamam e se afastam de Arnie e seu novo amor, Dennis passa a investigar as procedências do carro e descobre fatos importantes acerca do proprietário anterior, e como o carro ofereceu a sua contribuição para o que havia de pior no velho LeBay. Enquanto isso, circunstâncias incomuns e tenebrosas passam a acontecer entre aqueles que conhecem Arnie e Christine, e o que vem pela frente, como anuncia o prólogo, são consequências trágicas. 

No meio literário, é consenso que King é um mestre do terror. E embora a maioria dos seus livros lançados tenha algo sobrenatural envolvendo a trama principal e por seguinte o pavor que envolve o leitor, Stephen atribui aos seus personagens os piores sentimentos que o ser humano é capaz de transmitir. A premissa de um carro obscuro, capaz de atos brutais pode até ser percebida como esdrúxula, fantasiosa ao extremo. Mas não para King, que consegue extrair o que há de mais humano em um carro, trazendo a superfície o que há de mais terrível em nossa espécie. 
Mateus Pereira
23 anos. Jovem jornalista tímido, leitor e acumulador compulsivo, que gosta de levar livros na maioria das suas andanças, nem que for para fazer peso na mochila.

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2 Comentários

  1. Oi, Mateus
    Não sou muito conhecedora de Stephen King, li 3 livros dele e recentemente comprei Sob a Redoma, então não conhecia esse livro da resenha.
    Mas achei bem legal sua resenha, me deixou curiosa porque tem cara de ser um livro bem diferente dos demais – já que se trata de um carro.
    Curti a dica 🙂

    Beijos,
    Giulia | 1livro1filme.com.br

    1. Oi Giullia.
      Confesso que comecei a leitura dele mais por curiosidade e achava meio bizarro, mas o livro me prendeu de tal forma que achei válido indicar ;). Fico feliz que tenha gostado da resenha.

      Abraços,

      Mateus

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