(Conto) Um último drink

Com um aceno discreto, indicou ao garçom que o servisse outra dose de whisky. Já era a quinta vez que repetia o movimento quase automático. Não tinha a intenção de ser carregado daquele  bar por clientes piedosos de sua situação. Sabia quando deveria parar e estava consciente que tal momento ainda parecia distante.

Levou o cigarro aos lábios rachados pelo frio, exalando a fumaça cancerígena e ignorando por completo as reclamações indiretas da idosa rabugenta que bufava na mesa ao lado. Se a baranga velha estava tão irritada, jamais deveria ter colocado os pés em um estabelecimento tão indigno. “Os incomodados que se retirem”, balbuciou. Tal lema era um de seus favoritos. E ao longo de 79 anos vividos, não abdicava de jargões e ditados óbvios, pouco importava quantas cicatrizes suas palavras ferinas lhe causassem.

Irônica ou não, a verdade mais verdadeira era que ele era o ser mais deslocado do bar. Permanecia solitário, enquanto os demais fregueses celebravam frivolidades em mesas cheias. Torceu o nariz para a felicidade alheia, pois a vida já o ensinara que nada merece ser celebrado em demasia. De qualquer maneira, estava preso a essa tortuosa rotina há longínquos dois anos, desde que a esposa o deixara.

Não, ela não o havia abandonado como o ameaçara em cada discussão que tiveram em 48 anos de casados. Ela simplesmente morreu. Bateu as botas. Passou dessa para uma melhor. Mas não da melhor forma. Foi atropelada por um ônibus enquanto atravessava a rua na faixa destinada aos pedestres. Nos depoimentos posteriores, empresa e condutor do veículo afirmaram que aquela estúpida senhora não estava na faixa e seguia seu caminho sem olhar para ambos os lados. Tentativa vã, pois passageiros alegaram que o motorista havia cometido diversas imprudências ao longo do trajeto e uma desgraça era bem iminente.

Aquelas falas só serviram para comprovar o que ele já sabia. Vitória não fazia o estilo desatenta, ainda mais quando o assunto era trânsito. Ele era o irresponsável da relação, não ela. Ao final do processo, mesmo recebendo uma satisfatória indenização, não encontrava motivos para sorrir, sua motivação de estar vivo foi esmigalhada como os ossos de sua amada esposa.

Agora, estava lá, passando a mão em seus escassos cabelos brancos, enquanto seus olhos azuis permaneciam distantes, observando a grandiosidade do nada. Tais recordações latejavam em sua cabeça, e como se o princípio de enxaqueca não fosse o bastante, os odores da clientela local o nauseavam agressivamente. Necessitava deixar aquele bar o mais rápido possível.

Depositou sobre a mesa uma quantia que cobria os gastos da noite e que ainda satisfaria o garçom com uma generosa gorjeta. Poucos passos o separavam da avenida principal daquela cidade. O fraco movimento de automóveis permitia que ele caminhasse fora da calçada. Entorpecido, não ouviu a estrondosa sirene da ambulância, que avançava veloz naquele fim de tarde. Respirou fundo e sentiu um baque poderoso em suas costas. Logo voava por cima do veículo e ainda conseguira encontrar algum  tempo para contemplar o céu antes de escutar seus ossos se partindo enquanto o corpo colidia com o asfalto. O agito ao redor não o perturbava mais e apenas desejou ver o rosto de sua amada Vitória antes de dar seu último suspiro. Contudo, só vislumbrou um borrado riacho de sangue, que partia de seu crânio e gotejava lentamente no bueiro mais próximo.

Mateus Pereira
23 anos. Jovem jornalista tímido, leitor e acumulador compulsivo, que gosta de levar livros na maioria das suas andanças, nem que for para fazer peso na mochila.

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