A menina submersa – Caitlín R. Kiernan

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Sempre há um canto de sereia que te seduz para o naufrágio.” Desde as primeiras páginas de A menina Submersa, você sabe que está sendo arrastado para uma história sombria e aterradora, mas não é capaz de resistir à sedução da narrativa, e à poesia peculiar de suas palavras. Assim como a menina, submergimos em um universo habitado por fantasmas e dores, onde a realidade, o mítico e os mistérios da mente se convergem.

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Ao desafiar os limites entre “real”, “verdadeiro” e “imaginação”, Caitlín R. Kiernan cria uma maneira única de conduzir o leitor através dos relatos de India Morgan Phelps. Imp é uma menina singular, com histórico genético esquizofrênico e paranóico, e uma história de vida e morte também incomum. Sua mãe e sua avó buscaram o suicídio e India começa a escrever um livro de memórias para lutar contra a chamada “maldição da família Phelps”. Seus registros tentam reconstituir fatos, pensamentos, diálogos e ideias, organizando um caminho pelo labirinto dos sentimentos e dos transtornos mentais.

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A cada capítulo, somos desafiados a nos deparar também com nossos próprios medos, com aquilo a que atribuímos sentidos, e como podemos ser evasivos perante ambas as coisas. Por mais que a narrativa aconteça de forma não-linear, e isso muitas vezes nos deixe atordoados, essa maneira faz muito sentido  para o desenrolar da trama. A marcante Eva Canning, a relação de Imp com a namorada transexual, seu transtorno e consigo mesma, a simbólica aparição de fantasmas, sereias e lobos. A combinação desses elementos emerge num retrato marcante de realismo mágico, coberto de camadas de mistérios, beleza e horror.

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Vindo de uma sequência de leituras pesadas e densas, A Menina Submersa me causou pesadelos, sobretudo na primeira parte da história. Mas, me deixei seduzir pelo deleite estético do livro, que torna a leitura muito mais convidativa e envolvente. Aliás, o deleite estético é marca registrada desta edição lindíssima da Dark Side Books, que completa de forma perfeita o conteúdo e atmosfera da obra. Por mais que pareça uma leitura difícil, não é. O ápice do comportamento de Imp se dá no capítulo chamado “Sete” onde realmente adentramos os pensamentos da narradora durante uma crise. Ainda assim, é absolutamente viciante e  intrigante, também pelas referências criadas – aliás, é importante pesquisar todas elas, pois são todas muito bem construídas e encaixadas, e somos enganados, ficando tão confusos quanto a sua veracidade, como nos relatos imprecisos da narradora. Imp se mostra instável, obsessiva e não confiável. Interrompe a si mesma, transcreve fluxos de pensamento, contos, descrições de obras e artistas reais e ficcionais, pedaços de poesia… Elementos que só enriquecem a experiência, inclusive permanece a vontade de ler mais contos de India, seria interessante ter um livro todo de contos de autoria da personagem.

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De forma geral, A Menina Submersa, evoca e cita uma série de referências distintas, mas que se completam e interligam de forma inteligente: Tim Burton, Poe, Wodehouse, David Lynch e de Neil Gaiman, as obras de Lewis Carrol, Emily Dickinson e a Ofélia, de Hamlet (Shakespeare), além de citar diretamente artistas mulheres que deram um fim trágico a suas idas, como a escritora Virginia Woolf.

Enfim, não é sem mérito que o livro foi ganhador do prêmio Bram Stoker®, importante premiação para livros de terror e se tornou um dos meus favoritos, além de ser a edição mais linda da minha estante.

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Alguns trechos marcantes da obra:

“É um mito que pessoas loucas não saibam que são loucas. Sem dúvidas, muitos de nós são capazes de epifanias e introspecção como qualquer outra pessoa, talvez até mais. Suspeito que passamos muito mais tempo pensando sobre nossos pensamentos do que as pessoas sãs.”

“Nenhuma história tem começo e nenhuma história tem fim. Começos e fins podem ser entendidos como algo que serve a um propósito, a uma intenção momentânea e provisória, mas são, em sua natureza fundamental, arbitrários e existem apenas como uma ideia conveniente na mente humana. As vidas são confusas e, quando começamos a relacioná-las, ou relacionar parte delas, não podemos mais discernir os momentos precisos e objetivos de quando certo evento começou. Todos os começos são arbitrários.”

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A normalidade é um comprimido amargo do qual reclamamos.

Imp não tem certeza do que isso significa. Só ocorreu a ela, e ela não queria perder.”

“Gente morta, ideias mortas e supostamente momentos mortos nunca estão mortos de verdade e eles moldam cada momento de nossas vidas. Nós o ignoramos e isso os torna poderosos.”

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“O que mais tememos não é o conhecido. O conhecido, por mais horrível ou prejudicial à existência, é algo que podemos compreender. Sempre podemos reagir ao conhecido. Podemos traçar planos contra ele. Podemos aprender suas fraquezas e derrotá-lo. Podemos nos recuperar de seus ataques. Uma coisa tão simples quanto uma bala poderia ser suficiente. Mas o desconhecido desliza através de nossos dedos, tão insubstancial quanto o nevoeiro”.

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Ficha técnica:
Título: A Menina Submersa – Memórias
Autora: Caitlin R. Kiernan
Editora: DarkSide® Books
ISBN-13: 978-85-6663-653-6
Ano da Edição: 2015
Classificação no skoob:★★★★★

Pamela Caitano
22 anos. Jornalista e curiosíssima por histórias. Encontrou nas palavras amor, a profissão, e refúgio.

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4 Comentários

  1. Sabe, Pami, esse trechinho ali que a autora discorre sobre o medo do desconhecido me fez lembrar um livro que usei na monografia. Se não me engano, era “Teorias do jornalismo”, escrito pelo Felipe Pena. Ele atribui a origem do jornalismo ao medo do desconhecido, já que o homem tem medo do que não conhece aí “inventou” o jornalismo para desmistificar os assuntos e torná-lo comum a todos.
    A capa do livro já sugere o negrume no qual a história parece submersa, mas ao mesmo tempo é linda e as fotos ficaram perfeitas! A leitura parece bem perturbadora pela tua resenha, mas, ao mesmo tempo, com uma narrativa de tirar fôlego!

    1. Perfeita a tua analogia do texto da Imp com o jornalismo. O princípio é o mesmo = registrar para que a história não se perca, tentar entender os fatos. E um pouquinho sobre manter a sanidade também.

      A edição desse livro é muito esmerada, beirando à perfeição. A editora conseguiu transmitir a atmosfera e o senso estético da narrativa pra parte gráfica, coisa que raramente vejo acontecer tão bem. Ele é lindo assim por dentro e por fora, cheio de ilustrações e recursos. Obrigada! A leitura é perturbadora, mas envolvente demais. Eu realmente amei ♥

    1. Oi, Gi ♥

      Obrigada! Ela é realmente como o canto de uma sereia 😉 A atmosfera é dark e envolvente, tem um mistério na medida certa, e é também muito sensível e bonito. Quando tiver a oportunidade, leia. Vale a pena demais! ♥

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