O Sorriso da Hiena, de Gustavo Ávila

Com uma capa excêntrica e um título intrigante, O Sorriso da Hiena faz juz a sua boa fama antes mesmo do primeiro capítulo. O prólogo do livro é um show de horrores que elevam a adrenalina do leitor a nível máximo!

William, psicólogo de meia idade desenvolve uma teoria sobre como as pessoas são influenciadas por algum trauma que ocorreu ainda na infância. Fazer esse tipo de pesquisa seria impossível. Enquanto isso, se contenta a felizmente ter a oportunidade de ajudar crianças que perderam seus entes queridos.

Poucas páginas viradas e David entra na história. Com as mesmas dúvidas que o psicólogo e movido por questões pessoais, se propõe a fazer o que for possível para o estudo sair da teoria e ser observado na prática – mesmo que para isso, seja necessário fazer muito mal. Para David não há dúvidas: os fins com certeza justificam os meios e nisso que ele trabalha na cabeça de Will. Nesse ponto, não pude deixar de me questionar como um psicológo renomado seja capaz de ser manipulado a ceder a seus próprios e piores instintos.

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David é o serial killer dessa história e de tão psicopata, acha que é o herói mal compreendido. Mas durante a leitura eu não parei de pensar na real motivação do assassino. Na minha lógica, apenas tristeza e raiva não são suficientes para criar um assassino em série. Tudo que li nessas 300 páginas me fizeram acreditar, e sentir, que o David sente prazer em matar.

Para finalizar a tríade principal das sangrentas páginas da obra, o autor nos apresenta Artur. Um sopro de esperança na história, que também a meu ver, se tornou o melhor e mais trabalhado personagem do livro. Com respostas afiadas e pouco cautelosas, ao melhor estilo Sherlock (BBC), o detetive principal da trama exerce o papel de ligação da história e ganha destaque por trazer ao público os desafios que enfrenta ao ser portador da síndrome de Asperger, ao mesmo tempo em que se equilibra entre erros e acertos em busca da motivação para tantos assassinatos brutais.

“O mal é um estado natural do ser humano, que nasce sem a noção do que é certo ou errado, sem a consicência moral, agindo para saciar suas necessidades, movido apenas pelos seus instintos selvagens. Em um mundo onde o mal nasce com a gente, todos fariam qualquer coisa, sem apego à moralidade, para não sucumbir” (pg.238)

Narrado em terceira pessoa, como se o leitor estivesse realmente assistindo a um filme, Gustavo Ávila evidencia de maneira muito forte a áurea cinematográfica do livro. As fortes semelhanças com um roteiro de cinema trouxeram uma escrita fluída mesmo com os cortes abruptos, que na verdade, dão o tom incessante, suspeito e sanguinário a história da mesma forma que um jogo de câmeras poderia fazer no cinema. A ausência de títulos para os capítulos ajuda a criar mais expectativas.

Outro detalhe interessante é que em nenhum momento são citados sobrenomes dos personagens e não há descrições longas e detalhadas a respeito da ambientação dos locais onde a história se passa. O que não me parece de forma alguma atrapalhar o andamento da narrativa, pelo contrário, é mais fácil de imaginar o cenário sem criar um estereótipo com base nos ambientes que estamos acostumados a ler e assistir. O Sorriso da Hiena se passa em diversos lugares e também em lugar nenhum ao mesmo tempo: fica a critério do leitor e das descrições do autor criar a atmosfera do enredo.

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Com críticas ao sistema policial, que as vezes só quer colocar alguém atrás das grades, sem averiguar de fato a verdade, não tenho palavras para dizer o quanto o desenvolvimento da história me prendeu e me impressionou.  Da mesma forma preciso dizer que o final em nada me agradou. Talvez a alguns leitores tenha soado como algo genial já que sugere um desfecho não previsto, de fato. Mas mesmo analisando os detalhes, em conversa com o próprio autor, com a ciência que foi uma escolha do Gustavo optar pelo ápice ser o próprio enredo, esperava outro rumo para as páginas finais. Mas nada que tire o brilho dessa obra. 

Mesmo com essas ressalvas, o final leva mérito ao se aproximar da triste realidade brasileira nos processos investigativos de crimes: quase não há sucesso e resoluções nesses casos. Indico esse livro a todos os amantes de romance policial e thrillers psicológicos e saio de fininho porque o aviso já foi dado e salve-se quem puder:  Ninguém gosta de linguarudos!

Ficha técnica:
Título: O Sorriso da Hiena
Autora: Gustavo Ávila
Editora: Independente
ISBN-13: 9788591967308
Ano da Edição: 2015
Páginas: 304
Classificação no skoob:★★★★☆

Ana Paula Padilha
26 anos. Jornalista, encantada por palavras – ditas ou escritas. Um filme antigo ou um livro atual são essenciais. Disseram que a vida não é um mar de rosas, ainda bem, hortênsias são mais bonitas.

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